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segunda-feira, 9 de abril de 2012

Entrevista com Moriteru Ueshiba


por Stanley Pranin
Aikido Journal #118 (Fall/Winter 1999)
Traduzido por William Soares

Editor Stanley Pranin: Quando você começou a olhar para o aikido com olhar no seu futuro como herdeiro da tradição?
Doshu: Foi apenas quando eu me tornei um estudante universitário que eu comecei a buscar isso com consistência verdadeira. Eu tinha que ir para escola, então, eu só podia praticar algumas horas por dia, na parte da manhã ou de tarde, dependendo do meu programa de aulas. Acho que eu só praticava em média umas duas horas por dia. Durante as férias da primavera eu praticava uma hora extra, por exemplo praticando uma hora de manhã e duas horas na parte da noite, ou vice e versa. Mesmo depois de me graduar o ritmo continuou o mesmo até quando eu tinha aproximadamente trinta anos. Em torno de 1979 meu pai se adoentou por um período e a partir daquele momento em diante as obrigações com o ensino começaram a mudar o meu caminho gradualmente.

Você diria que o seu pai Kisshomaru teve a maior influência sobre você?
Ele costumava ensinar todos os dias de manhã e às sextas-feiras na parte da noite, então eu estava sempre nessas aulas. Eu participava de aulas com outros professores também, mas eu havia vivido toda a minha vida sob o mesmo teto de meu pai, então sem dúvida, o treino que eu tinha com ele era o que mais me influenciou.

Havia alguma coisa em particular que o seu pai enfatizasse ao falar como você a respeito da história do aikido?

Ele não falava muito a respeito desse tipo de coisa comigo. A maior parte daquilo que eu o ouvi falar sobre isso eu escutei depois de começar a treinar de forma mais regular com ele e quando eu o acompanhava a seminários, palestras e demonstrações. Ele nunca se sentou comigo enquanto estávamos em casa e disse, “Moriteru, isso é assim…” ou “Moriteru, essas são as coisas que eu quero que você saiba…”
Em todo o caso, desde o tempo em que eu nasci eu vivi junto com meu avô, o fundador do aikido, e meu pai o Doshu anterior, então eu tenho certeza de que eu fui influenciado por ambos de diferentes formas, mesmo se eles nunca falassem comigo especificamente sobre tais coisas. Eu nasci e fui criado em um ambiente de aikido, em todos os aspectos, técnicos e outros.

Que tipo de treino o seu pai lhe transmitiu especificamente?
Eu treinava com todo mundo, então nunca houve uma vez que ele me chamasse à parte para transmitir apenas para mim um treino especial. Ele sempre chamava a minha atenção para me dar alguns conselhos quando eu estava fora do tatame, por exemplo, para sempre executar minhas técnicas de modo limpo e cuidadosamente, para manter os meus quadris baixos, e para executar os meus movimentos de modo amplo. Mas em termos de como executar um nikyo ou sankyo ou qualquer outra técnica, eu tenho visto e experimentado essas técnicas desde que eu era pequeno e já as entendia, então eu nunca recebi nenhuma instrução particularmente detalhada a respeito delas. A maioria do que me foi ensinado tem a ver com os pontos maiores que eu acabei de mencionar.

Outra coisa que eu tenho que dizer é que, embora meu pai fosse também meu professor, quando nós íamos para casa à noite a nossa relação era apenas como qualquer outro pai e filho (risos).

Isso também inclui o tipo de estágio “rebelde” pelo qual muitos adolescentes passam em um ponto ou outro?
Bem, não, de fato eu nunca tive esse tipo de embate com meu pai, mas aparentemente eu fui algo aterrorizante na escola elementar (risos). Eu costumava me meter em todo o tipo de problema, e a minha mãe estava sempre sendo chamada para lidar com algo que eu tinha feito. Então eu acho que qualquer que fossem as necessidades de rebeldia que eu tenha tido, elas foram canalizadas para fora ao invés de ir de encontro ao meu pai.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Entrevista com Kisshomaru Ueshiba: Os primórdios do Aikido


por Stanley Pranin
Aiki News #77 (April 1988)
Traduzido por William Soares

Kisshomaru Ueshiba
Sensei, eu gostaria de verificar sucintamente alguns pontos históricos. Para começar, quando Ueshiba Sensei veio à Tóquio pela primeira vez com a idade de 17 ou 18 anos, a família Inoue estava envolvida de alguma forma?
Parece que ele foi para Tóquio dependendo do apoio dos Inoues. Eu me refiro a um parente do Sr. Noriaki Inoue em Tanabe. Logo depois de chegar à Tóquio meu pai sofreu beribéri. De forma que ele não teve uma experiência muito boa quando veio à Tóquio quando jovem. No entanto, como ele gostava de artes marciais, parece que ele treinou em um dojo durante um curto período.

O Sr. gostaria de falar a respeito da experiência de seu pai no exército e treinamento em Yagyu Shingan-ryu?
Enquanto ele esteve no exército ele atingiu o posto de sargento. Nessa época ele treinava Yagyu Shingan-ryu com Masakatsu Nakai aos domingos com seus subalternos e conhecidos. Mas isso era apenas uma vez por semana.

Isso foi depois que ele retornou do fronte durante a guerra Russo-Japonesa, cerca de 1905?
Isso mesmo. Eu acredito que embora não fosse um oficial não comissionado no exército, ele era muito respeitado. De acordo com a minha mãe ele costumava entrar pelo portão da guarnição enquanto pedalava em um rickshaw. Normalmente fazer uma coisa dessas deixaria os outros zangados. Isso mostra o quanto os seus amigos soldados eram devotados a ele.

Por quanto tempo a sua mãe Hatsu permaneceu em Hokkaido?
Ela já estava lá quando Shirataki foi destruída pelo grande incêndio, então eu acredito que ela foi para lá por volta de 1913. Eu acredito que ela tenha retornado entre seis meses a um ano antes de meu pai.

Eu acredito que Yoroku Ueshiba [pai de Morihei] e Zenzo Inoue [pai de Noriaki Inoue] foram para Hokkaido também.
Yoroku foi para lá, mas eu não sei se o pai do Sr. Inoue foi para lá também. Yoroku desistiu de seu trabalho como membro do conselho da vila de Tanabe e se tornou um residente com registro em Hokkaido. Ele foi para lá com a intenção de levar tudo consigo. [Na verdade Yoroku retornou para Tanabe depois de curta permanência].

Nos registros de pagamentos mantidos por Sokaku Takeda Sensei está registrado que Morihei Sensei deixou sua casa para o seu professor quando ele deixou Hokkaido para ir à Tanabe na época da doença de seu pai em 1919. Esse documento ainda existe.
Eu entendo que meu pai tenha dado a casa a ele. Ele disse que deu todos os seus bens, inclusive o seu selo de registro para o Sr. Takeda, dizendo que ele poderia fazer o que quisesse com eles. Eu não sei o que aconteceu com a casa depois disso. Na última vez que estive em Hokkaido a casa já havia desaparecido e havia campos cultivados no local. Havia um templo atrás dos campos e eu descobri o nome de Morihei Ueshiba escrito ali.

Nós entendemos que Morihei Ueshiba Sensei se mudou para Ayabe dois ou três meses depois da passagem de seu pai Yoroku e foi solicitado a começar um dojo de artes marciais por Onisaburo Deguchi Sensei.
Ele não foi solicitado a iniciar um dojo no começo. Meu pai havia se desfeito da maioria de seus bens em Tanabe na época. Enquanto esteve em Ayabe sua vida diária teve que se transformar em uma vida de consumidor. Ele tinha que ter dinheiro o suficiente para viver. No entanto, como meu pai já havia vendido a maior parte de seus bens quando ele se mudou para Hokkaido, parece que parentes o ajudaram com dinheiro. Quando eu herdei os bens em Tanabe eles estavam em nome de minha mãe. E o mais interessante é que eles estavam no nome de solteira de minha mãe, "Hatsu Itogawa" ao invés de "Hatsu Ueshiba". Então ele retornou à Tanabe apenas poucas vezes.

Parece que meu pai doou algum dinheiro para a religião Omoto quando se mudou para Ayabe. Eu acho que foi por isso que as pessoas da religião Omoto pensaram que eles deveriam fazer alguma coisa pelo meu pai e deram permissão a ele para construir uma casa no terreno da Omoto. Ele era amante de artes marciais desde o início e, dessa forma, quando a família se mudou para Ayabe eles arrumaram as coisas e ele pôde treinar na casa. Era um pequeno dojo no qual havia 14 ou 16 placas de tatami. Havia quatro portas corrediças grandes na casa e, mais adiante, um templo. Eu costumava ser repreendido por fazer furos nas portas corrediças. (Risos) Uma placa com os dizeres "Ueshiba Juku" (escola Ueshiba) havia sido escrita por Onisaburo Deguchi Sensei em 1920 e o dojo foi aberto. A placa estava sempre localizada próximo a entrada do dojo. Em 1921, quando eu nasci, meu nome "Kisshomaru" foi escrito por Onisaburo Deguchi Sensei. Ele escolheu o nome logo depois de ter sido libertado da prisão. [Deguchi foi preso como conseqüência do Primeiro Incidente da Omoto].

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Entrevista com Kisshomaru Ueshiba

por Stanley Pranin
Aiki News #30 (August 1978)
Traduzido por William Soares
O artigo a seguir foi preparado com a gentil assistência de Jason Wotherspoon da Australia.

A entrevista a seguir foi realizada em 30 de maio de 1978 em Shinjuku, Tokyo na residência do Doshu Kisshomaru Ueshiba. O tema da entrevista foi a biografia, recentemente publicada pelo Doshu, de seu pai, o O-Sensei. Aqueles que estavam presentes na entrevista eram o Doshu, o editor da Aiki News, Stanley Pranin, e o intérprete Midori Yamamoto.


Editor: Quando foi publicada a primeira edição de seu livro Morihei Ueshiba, o fundador do Aikido?
Doshu Kisshomaru Ueshiba: No final de setembro… dia 28 de setembro de 1977.

Aproximadamente quando o Sr. começou a escrever a biografia?
Eu não posso dizer com certeza quando eu comecei a escrevê-la. Já se passaram nove anos desde que meu pai faleceu. Aproximadamente dois ou três anos depois da morte de meu pai, eu comecei a organizar os materiais. Então aproximadamente no início de 1976 eu estabeleci seriamente a tarefa e pedi ajuda da editora. Eu fiz isso durante um longo período de tempo. De todo o modo, antes de eu ter ido a Hokkaido, estive em toda a Wakayama, em Ayabe e Kameoka, toda aquela área, e também acima de Tajima. Eu estive aqui e Alina procura dos traços de meu pai. Para mim, especialmente, era a primeira vez que eu estava em Hokkaido, onde eu estive na parte alta das montanhas. Eu prestei uma visita ao templo da vila de Shirataki. Mesmo as pessoas da vila não tinham conhecimento que havia uma conexão entre o templo e Morihei Ueshiba. Eu estive lá e solicitei ajuda ao líder da vila para remover os pregos – embora fosse discortês perturbar o templo – uma vez que não havia ninguém habitando lá e o templo externo estava fechado com pregos. Quando nós entramos, com bastante clareza, havia algo escrito a respeito de uma doação feita por Morihei Ueshiba em tal e tal data. Então nós descobrimos algumas informações novas e, pouco a pouco, o livro começou a tomar forma.

De acordo com o prefácio do seu livro, em Shrataki o Sr. encontrou um velho senhor que se mudou de Tanabe para Shirataki com seu pai, não encontrou? Eu imagino que o Sr. tomou conhecimento de um grande número de anedotas preciosas ao ouvir as histórias do ancião. O Sr. Poderia nos falar sobre isso?
Era um homem chamado Takeda. Ele faleceu pouco tempo depois de eu tê-lo encontrado. Meu pai organizou uma associação de colonos em Tanabe e o grupo se dirigiu para Hokkaido.. Meu pai era o líder do grupo e o Sr. Takeda era um dos membros. Ele era um rapaz, provavelmente adolescente, eu acredito. Ele se lembrava daqueles dias já que ele havia ido com meu pai e tinha compartilhado tanto as alegrias quanto as dificuldades. Depois que o Aikido se tornou popular, muitas pessoas que o praticam tomaram o caminho para Shirataki a fim de explorar as raízes do Aikido. Eles nunca falharam em buscar o Sr. Takeda para ouvirem suas histórias a respeito daqueles dias, então ele desenvolveu um estilo de contar histórias. Embora as histórias fossem repetitivas, elas eram muito interessantes.

Qual era o primeiro nome do senhor Takeda?
Se você procurar na Aiki Shimbun, você o encontrará lá… em uma das edições antigas da Aiki Shimbun.

A Shirataki de hoje ainda é pequena ou se tornou maior?
Shirataki hoje se encontra em processo de se tornar uma área despovoada. Como qualquer desenvolvimento futuro, bem, pode ser difícil…eu acredito que a população esteja diminuindo. A geada começa em setembro ou no início de outubro, então é um lugar bem frio. No entanto, é um lugar muito agradável. Inclusive com primaveras quentes. Eu estive lá por volta de setembro e graças ao chefe do vilarejo, o líder do conselho e alguns dignitários do vilarejo ofereceram um banquete em minha homenagem. Foi realmente maravilhoso.

Eles ofereceram ao senhor uma grande recepção, não é mesmo?
Sim, eles certamente ofereceram. Nas histórias que mencionei antes, que o Sr. Takeda me contou, ele me mostrou o terreno que pertenceu ao meu pai. Ele disse que o meu pai cultivava uma grande porção de terra que ele havia comprado do governo. De acordo com ele, meu avô, que foi durante muito tempo um membro do conselho do vilarejo de Tanabe, estava bem de vida. Foi por isso que meu pai, o Fundador do Aikido, pode agir como lhe agradava e foi para Hokkaido com o apoio do dinheiro de meu avô.Takeda me disse, “o seu avô era um grande homem. Por causa disso o seu pai era livre para desenvolver o aiki como ele fez. O seu avô deu ao seu filho todo o dinheiro que ele precisava”. Eu já havia ouvido essas coisas antes, mas foi a primeira vez que as ouvi de alguém que tinha conhecimento real sobre elas. Quando eles viajaram de Tanabe para Hokkaido eles partiram de Aomori pela via barca Kampu (atualmente barcas Seikan). Não havia estrada de ferro para Shirataki. Você tinha que ir de Asahikawa na direção de Abashiri para chegar até lá. Então eles utilizaram carruagens puxadas por cavalos. Ele me contou várias histórias a respeito das dificuldades como no dia em que a carruagem ficou atolada na neve quando os cavalos ficaram agitados. Eu acredito que as coisas devem ter sido muito difíceis naqueles dias.

O senhor alguma vez visitou Hokkaido com seu pai?
Não, nunca. Essa foi a primeira vez que eu estive em Hokkaido.



Entrevista com Mitsugi Saotome - parte 01


Aiki News #89 (Fall 1991)
Traduzido por Christiaan Oyens
Este artigo foi preparado graças à ajuda de Jim Sorrentino dos Estados Unidos.

Mitsugi Saotome Shihan é muito conhecido nos Estados Unidos como o fundador do Aikido Schools of Ueshiba (Escolas de Aikido de Ueshiba). Nesta primeira metade de uma entrevista de duas partes, Saotome Shihan recorda seus quinze anos como uchideshi no Hombu Dojo, relata suas impressões sobre O-Sensei e discute sua abordagem para o treinamento com armas.

Aiki News: Poderia nos contar um pouco sobre o seu background em Aikido?
Saotome Sensei: Eu pratiquei Judo quando estudava na escola secundária. Fui enviado ao Kuwamori Dojo com uma carta de apresentação do meu professor de Judo porque ele achava que o Aikido seria bom para mim. Foi assim que fui introduzido ao Aikido. Quem estava dando aula naquele momento era o Seigo Yamaguchi Sensei. Eu era maior do que sou agora e pesava uns 90 kilos. Eu estava acostumado a ganhar competições de Judo em Tókio. Após a aula, Yamaguchi Sensei mandou que eu agarrasse seus dedos. No instante que eu os agarrei ele me arremessou. Não entendi como aconteceu e pensei que tivesse tropeçado em algum dos tatames. Pedi então que ele fizesse isso de novo. Acho que fui arremessado umas quatro ou cinco vezes. Ele me arremessou com seus dedos e também quando agarrei os seus ombros. Foi assim que fui iniciado nesta arte. Depois da aula conversei com o Yamaguchi Sensei e com o Kuwamori Sensei não só sobre artes marciais, mas também sobre vários assuntos como a filosofia oriental. Fiquei muito feliz com isso, pois estava ansioso para discutir estes temas. Ainda respeito Kuwamori Sensei e fiquei muito impressionado com o Yamaguchi Sensei. Então entrei no dojo enquanto seguia a minha prática do Judo.

Isto ocorreu após o retorno de Yamaguchi Sensei de Burma?
Não, isto foi antes de sua ida. O Kuwamori Dojo foi o primeiro dojo sucursal Aikikai após a guerra. Naquela época, o Doshu de Aikido Kisshomaru Ueshiba visitava o nosso dojo, nós o chamávamos então de “Wakasensei”. Pensei que ele seria um típico adepto das artes marciais, mas ele na realidade parecia um professor de universidade e era muito cortês ao falar. Ele me impressionou com os seus modos de cavalheiro. Fiquei surpreso com as suas mãos fortes e grossas. Ele era muito diferente dos professores de Judo. Falei com ele sobre vários assuntos e vim a apreciar o Aikido mais ainda.

Naqueles dias o Wakasensei ainda trabalhava na Companhia de Seguros Osaka. Eu treino Aikido desde aquele tempo. Shoji Nishio também estava presente. E Nobuyoshi Tamura tinha começado três meses antes de mim. Isto aconteceu há uns 37 anos [ca. 1954]. Desejava me tornar um uchideshi, mas isto só foi acontecer em 1961. Naqueles dias Tamura também trabalhava fora, mesmo sendo um uchideshi. Não era como hoje em dia que o dojo paga salários para seus professores jovens.

Quando conheci O-Sensei pela primeira vez eu cursava a escola secundária. Eu pratiquei no antigo Hombu Dojo. O dojo não era sujo, mas os tatames estavam bastante desgastados. O-Sensei, com sua barba branca, estava batendo papo com seus alunos. Não tinha a menor idéia naquele momento de quem era O-Sensei. O-Sensei falou comigo primeiro me dando as boas vindas enquanto as pessoas em sua volta aparentavam muita tensão. Fiquei bastante perplexo e senti um frio na espinha. Não sei se você pode chamar isto de um despertar espiritual, mas eu estava em estado de choque. Naqueles tempos eu pessoalmente visitava professores de diversas artes marciais, não só de Judo, mas todos eram muito diferentes de O-Sensei. O-Sensei tinha sessenta e poucos anos e era muito nobre. Foi uma oportunidade incrível para mim conhece-lo naquele momento. Ele me impressionou profundamente e me fez sentir que poderia abandonar tudo para ficar sob sua tutela.

Era o Wakasensei quem ministrava o maior número de aulas naquela época?
Wakasensei ensinava a aula matinal e depois seguia para o seu trabalho. Yamaguchi Sensei era quem dava o maior número de aulas.

Naquela época já existiam as aulas de manhã e à noite?
Exatamente. Mas não haviam tantas aulas no começo. O número de aulas cresceu gradativamente. Naqueles dias eu participava da aula das 8:00 às 9:00 que geralmente era dada por O-Sensei. Se apareciam dez alunos, o presente Doshu comentava como a aula estava cheia. Ele era jovem ainda. Me lembro que praticávamos kakarigeiko (treino contra ataques contínuos) como o Doshu. Hoje em dia o Aikido é conhecido, mas naquela época muita gente perguntava o que era o Aikido até mesmo em Tókio.

Quando eu era um uchideshi, O-Sensei me repreendia como muito mais freqüência do que aos outros. Eu fui um uchideshi durante mais de 15 anos e foi provavelmente por isso que ele achava mais fácil me repreender. Eu fazia o tipo desajeitado, enquanto que os outros uchideshi eram muito mais rápidos para aprender. Fui o último a permanecer como uchideshi. Em minha opinião, enquanto O-Sensei viveu a arte mudava ano após ano e estava sempre evoluindo. Eu queria observar como O-Sensei se desenvolvia. Foi por isso que fui o uchideshi que mais tempo ficou! [risos]

segunda-feira, 26 de março de 2012

Entrevista com Kenji Shimizu


por Stanley Pranin
Aiki News #77 (April 1988)
Traduzido por José Antonio Sousa

O texto a seguir é uma entrevista conduzida com um dos últimos uchideshi (aluno interno) de Morihei Ueshiba no Hombu Aikikai Dojo. Kenji Shimizu estabeleceu seu próprio dojo independente em meados da década de 1970, em Sangenjaya, Tóquio, chamado dojo Tendokan.

Sabe-se que o Sr. praticou judô antes começar no aikido.
Eu tinha uma visão muito limitada no começo e costumava considerar o judô como a única arte marcial. O inconveniente do judô é que você se machuca freqüentemente e não vê nenhuma melhora à medida que fica mais velho e perde a força física. Eu realmente gostava do judô e era muito deprimente ver minha habilidade diminuindo. Mesmo as pessoas mais novas podem estar em declínio no judô.

Qual sua idade quando começou no judô?
Eu comecei em 1953 quando tinha 13 anos. Eu era bom no judô e continuei praticando regularmente durante o período em que era estudante na universidade de Meiji. Enquanto garoto, pratiquei judô com as pessoas em torno de mim e me tornei forte. À medida que que fui ficando mais velho, mudei de categoria e lutei com muitos adversários grandes e fortes. Eu era motivado e treinava muito, mas não conseguia superar a diferença na força física. Por isso mudei para o aikido e realmente me envolvi com a arte.

Como o Sr. descobriu o aikido?
Sr. Kaburagi, diretor administrativo da Takanawa Geihinkan, sugeriu que eu visse Sensei Morihei Ueshiba, que vivia em Wakamatsu-cho em Shinjuku e quem ele considerava ser o último artista marcial restante no Japão. Eu tinha ouvido muito sobre ele antes disso. Por isso troquei o judô pelo aikido, mas não foi assim tão simples. Por exemplo, o judô tem combates, enquanto no aikido existe apenas a prática repetitiva. No início, achei o aikido muito lento. No judô sempre que o oponente abre a guarda você pode derrubá-lo. No aikido, entretanto, você permite que lhe derrubem. No começo, eu não conseguia entender porque tinha que esperar para ser derrubado. Mas, na realidade, quando suas técnicas melhoram torna-se completamente diferente.

O Sr. começou a treinar nas aulas regulares?
Sim. Por isso eu tinha muitas dúvidas. Mesmo achando que o aikido de O-Sensei era maravilhoso, ele não vinha ao dojo quando comecei a praticar. Outros professores vinham ensinar. Então, três meses mais tarde, me tornei um estudante interno. Isso foi em 1963 logo após minha graduação na universidade.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Entrevista com Katsuaki Asai


por Stanley Pranin
Aiki News #94 (Winter/Spring 1993)
Traduzido por José Antonio Sousa

O Shihan Katsuaki Asai foi enviado à Alemanha pelo Aikikai Hombu Dojo no alto de seus 23 anos. Em 1967 ele estabeleceu o Aikikai na Alemanha e desde então tem se devotado a difundir o aikido em seu país de adoção. Aqui, Shihan Asai nos dá uma noção de seus esforços durante os últimos 26 anos que conduziu para o nascimento e desenvolvimento do Aikikai da Alemanha.

Matriculando-se no Aikikai Hombu Dojo aos 13 anos.
Quando o Sr. se matriculou no Aikikai Hombu Dojo?
Foi na época em que eu cursava o ensino médio. Me matriculei em 31 de março de 1955 e meu número de registro no Aikikai é o 402.

Como o Sr. entrou no dojo sendo tão novo?
Tudo aconteceu porque perdi uma luta! Eu era muito pequeno naquela época. Quando me matriculei tinha 13 anos e apenas 1,40 m de altura. Pensei que tinha que aprender algo, a fim de ser capaz de derrotar um adversário com meu corpo pequeno. Naquela época, aconteceu de eu morar diagonalmente ao Hombu dojo e, assim, as crianças da vizinhança e eu, ficávamos sobre caixotes de maçã olhando para dentro do dojo, por cima dos arbustos que rodeavam o local.

Imagino que o Sr. viu Sensei Morihei Ueshiba.
Sim. Por que víamos O-Sensei derrubar pessoas ao seu redor, como Sensei Hiroshi Tada, é que comentávamos, entre nós, como ele era um homem forte.

Quais suas impressões sobre Sensei Ueshiba?
Impressões? Bem, essa é uma questão difícil. Eu era uma criança e não conhecia a fama de um professor chamado Sensei Ueshiba.

Quais eram os estudantes líderes no Aikikai Hombu Dojo naqueles dias?
Listando pela ordem de matrícula, havia o Sr. Nobuyoshi Tamura, Sr. Nishiuchi, Sr Yoshio Kuroiwa, eu, o Sr. Masamichi Noro [fundador do “Ki no Michi” com sede em Paris, França] e o Sr. Yasuo Kobayashi. Pessoas como Sr. Yoshimitsu Yamada [Aikikai de Nova Iorque], Sr. Kazuo Chiba [Aikikai de San Diego], Sr. Seiichi Sugano [Aikikai de Nova Iorque] e Sr. Mitsunari Kanai [Aikikai da Nova Inglaterra], matriculados bem depois. Por volta de 1959, Mitsugi Saotome [fundador das Escolas de Aikido de Ueshiba nos EUA.] veio para o Hombu Dojo proveniente do Kuwamori Dojo. Além dos uchideshi, havia pessoas como o Sr. Ikuo Iimura, Sr. Kubodera, Sr. Matoba, que recebeu um bonito ukemi, Sr. Sakai e Sr. Hiroshi Kato.

Qual era seu professor favorito no Hombu Dojo?
Eu não usaria a palavra “favorito”, mas, quando eu era derrubado por Sensei Tada me sentia muito bem. Ele me projetava longe de uma maneira dinâmica. Quando ele aplicava um kotegaeshi, ele me projetava e eu flutuava no ar, e a sensação era boa.

Penso que, pessoas que praticam o aikido podem entender. Há pessoas que quando lhe projetam a sensação é boa e outras que lhe projetam e a sensação é muito ruim.

Houve outras pessoas que deixaram uma forte impressão no Sr.?
Sensei Koichi Tohei [fundador do Aikido Shinshin Toitsu] foi outra pessoa. Aprendi com Sensei Tohei como explicar as coisas. A maneira de Sensei Tohei fazer as coisas é de fácil entendimento para os europeus, porque ele veio ensinar na América. Eu uso o método de explanação de Sensei Tohei em minhas próprias aulas.

Sensei, o Sr. foi de fato um uchideshi [aluno interno]?
Não. Tenho uma impressão muito ruim dos uchideshi daquela época. Pelo fato de morar em frente ao dojo e freqüentá-lo todos os dias, eu podia ver que, não apenas eles treinavam como loucos, mas que eram, de fato, diferentes. Pelo fato de haver uma grande diferença entre aquelas pessoas que estavam próximas a O-Sensei, como uchideshi, e aquelas que freqüentavam o dojo, eu podia distinguir entre os que eram uchideshi e aqueles que eram de fora.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Entrevista com Hitohiro Saito


por Sonoko Tanaka
Aikido Journal #113 (1998)
Traduzido por Christiaan Oyens
Este artigo foi preparado graças a assistência deVolker Hochwald da Alemanha.

“Não devemos romper com a tradição do fundador apenas porque pessoas chegam do exterior.”

Hitohiro Saito (40) nasceu em Iwama, onde iniciou sua prática de Aikido aos sete anos. Ainda criança estudou com Morihei Ueshiba e depois continuou aprendendo com seu pai, Morihiro Saito Shihan. Dedicado a preservar a tradição espiritual e técnica do aikido de O-Sensei, Hitohiro criou sua reputação pela excelência de sua técnica e seu método de ensino no Japão, Estados Unidos, Europa e Austrália. Pudemos sentir seu amor intenso e profundo respeito pelos seus dois mestres (o fundador e seu pai) durante esta entrevista exclusiva.

Hitohiro Sensei, quais são as suas primeiras memórias do dojo?
Eu dividia as refeições com O-Sensei e me davam o que sobrava do seu prato. Eu também me lembro que chorava de manhã durante a minha infância porque não encontrava a minha mãe do meu lado ao acordar. Ela estava sempre no dojo ajudando O-Sensei.

Dizem que O-Sensei era muito severo?
O-Sensei em geral só demonstrava suas técnicas nos outros lugares, mas ele instruía de verdade em Iwama e era muito rigoroso. Ele gritava, “Que tipo de kiai é esse! Vá lá fora e veja se consegue derrubar um pardal com o seu kiai”. Ou a alguém aplicando um yonkyo fraco, “Vá lá fora e experimente aplicá-lo numa arvore! Mantenha a chave até descascá-la!”.

Mesmo quando criança, eu percebi pela atmosfera que o rodeava que se tratava de um grande homem. Nós curvávamos nossas cabeças em reverência desde o momento que Saito Sensei, meu pai, ia buscar O-Sensei, e permanecíamos prostrados até a chegada de O-Sensei com o Saito Sensei vindo logo atrás. Finalmente, levantávamos nossos rostos para junto com O-Sensei fazer a reverência frente ao santuário do dojo. Aí, iniciávamos a pratica com tai no henko.

Se eu sentava ao lado de Saito Sensei enquanto O-Sensei explicava uma técnica como shomenuchi, me mandavam executar o shomenuchi em O-Sensei. Um dia, a minha irmã mais velha foi instruída a ir atacar O-Sensei, mas ela começou a chorar e saiu do dojo já que não era fácil para uma criança ir e interromper O-Sensei desta maneira. Mandaram que eu fosse em seu lugar e ataquei com um grito de kiai, aí O-Sensei comentou, “então você veio?” Ele me arremessou, mas usou sua mão para me proteger e evitar que a minha cabeça batesse no tatame, e disse, “tenha cuidado.” O-Sensei era uma pessoa muito boa.

Me lembro de um dia ir para o jardim e observa-lo escovar os dentes, quando de repente ele os removeu, como eram falsos, e disse, “isto foi engraçado, não?” (risos)

Quantos anos tinha na época?
Na época freqüentava o segundo grau. O-Sensei era vigoroso na época. Durante os seus últimos anos fazia longos aquecimentos, mas na época que iniciei o Aikido ele ensinava um numero maior de técnicas.

Quando decidiu se dedicar completamente ao Aikido?
Não tive muita escolha, já que eu era o único filho, mesmo que eu fosse muito preguiçoso quando o assunto era treinar. (risos) Tinha planos de abrir um restaurante para ganhar a vida enquanto fazia Aikido. Depois do secundário, fui para Sendai durante um ano onde estudei cozinha. Depois fui para Osaka por mais dois anos de estudo. Sempre que tinha folga, eu visitava o dojo de Seiseki Abe para estudar caligrafia com ele. Também visitava o aiki dojo de Bansen Tanaka.

Abe Sensei pratica o misogi ao se derramar com água fria todo manhã para purificar sua alma. Ele parecia expressar uma mente ascética através de sua caligrafia. Originalmente ele conheceu O-Sensei no dojo de Bansen Tanaka em Takahama. O-Sensei criou afinidade com ele no caminho do misogi e começou a estudar caligrafia com ele.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Entrevista com Hiroshi Tada


por Stanley Pranin
Aikido Journal #101 (1994)
Traduzido por Christiaan Oyens

AJ: Sensei, é verdade que o senhor começou a prática do aikido depois de ingressar na universidade de Waseda?
Tada Sensei: Sim, por causa da guerra não foi possível me inscrever no dojo até março de 1950.

Soube que o senhor treinou primeiro karate ao ingressar na universidade e só depois se sentiu atraído pelo aikido…
Na verdade não treinei muito karate, se bem que tenho um grau de dan. A princípio praticava ambas as artes, mas eu comecei a dedicar mais tempo ao aikido e ficou impossível de treinar as duas artes. Não é que eu tenha achado uma arte melhor que a outra, a questão era que admirava tanto Morihei Ueshiba Sensei. Eu o conhecia desde a minha infância.

Em 1942, eu estava em Shinkyo (hoje em dia Chan Chun, Manchuria), mas tinha acabado de perder a apresentação de Ueshiba Sensei na famosa Décima Exibição de Artes Marciais da universidade de Kenkoku. Meu primo, que é um ano mais velho do que eu, me disse que foi uma demonstração fantástica. Aparentemente quase ninguém conseguia receber ukemi de Ueshiba Sensei. Não estavam apenas sendo arremessados, era como se estivessem sendo eletrocutados por uma grande descarga elétrica.

Na quarta edição do Aikido Tankyu [uma publicação do Aikikai Hombu Dojo] o senhor escreveu que se sentia surpreso e impressionado pelos pensamentos inusitados de Ueshiba Sensei.
Eu tinha vinte anos ao ingressar no dojo e Sensei tinha sessenta e sete, uma diferença de uns quarenta e sete anos. Mas ele me arremessava com tanta facilidade, mesmo quando o atacava com toda força, que nesse sentido não se notava qualquer diferença de idade entre nós. Hoje acho isso compreensível, é claro.

De qualquer maneira, ele tinha uma presença singular e era repleto de uma energia incomum. Eu senti que tinha encontrado um verdadeiro especialista nas artes marciais.

Ingressou no Tempukai na mesma época que começou o aikido?
Quando ingressei no Hombu Dojo, a maioria dos praticantes eram membros do Tempukai ou do Nishikai. Claro que naquele momento só tinham seis ou sete pessoas no dojo. Entre eles estavam Keizo Yokoyama e seu irmão mais novo, Yusaku, ambos sendo estudantes da universidade de Hitotsubashi. Yusaku passou os últimos dias da guerra na academia naval e entrou na universidade após o termino da guerra. Foi ele que me apresentou ao Tempukai e ao Ichikukai. Depois outra pessoa me ensinou sobre os exercícios de jejum. Estas práticas, associadas aos ensinamentos de Morihei Ueshiba Sensei, formaram a base do meu treinamento.

Fui apresentado ao Tempukai em Junho do mesmo ano que ingressei no Aikikai. Tempu Nakamura Sensei ministrava reuniões de estudo mensais no Templo Gekkoden de Gokokuji. Igual ao Aikikai, o Tempukai pouco fazia para se promover publicamente e as pessoas se ingressavam no Tempukai ao serem apresentadas por outros membros. Eu conheci Tempu Sensei e depois de ouvir o que ele tinha a dizer, aderi imediatamente.

Ueshiba Sensei e Tempu Sensei se conheciam pessoalmente?
Sim. Foi antes de eu ter entrado no dojo, mas parece que tinham sido apresentados já há algum tempo pelo pai de Tadashi Abe, que era tanto um membro do Tempukai como aluno de Ueshiba Sensei. Inicialmente, o Tempukai era conhecido como Toitsu Tetsuigakkai (Sociedade Para o Estudo da União entre Medicina e Filosofia), e seu foco era a união entre mente e corpo. Eu participei de várias experiências do Tempu Sensei, então tive muito contato com ele.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Entrevista com Hiroshi Isoyama


por Stanley Pranin
Aikido Journal #119 (2000)
Traduzido por William Soares (Nippon kan Brasil)

Hiroshi Isoyama começou a treinar no Dojo de Iwama com o Fundador do Aikido Morihei Ueshiba ainda menino, com 12 anos de idade. Ele é um dos raros indivíduos – outro é Morihiro Saito – a ter sido exposto ao fundador durante o período de maturação do Aikido moderno. Isoyama é apaixonado pelo seu estudo do Aikido e o seu dinamismo se reflete em sua técnica explosiva. Agora aposentado, depois de uma longa carreira na Força de Auto-Defesa Aérea, Isoyama devota tempo integral em sua busca, treinamento e ensino. Ele tem se tornado imensamente conhecido internacionalmente devido as viagens para o exterior que tem realizado nos anos recentes.

Aikido em Iwama após a Guerra
Aikido Journal: Por favor, nos diga como o Sr. começou no Aikido.
Isoyama Sensei: Foi em 1949, que, como você sabe foi uma época muito difícil para o Japão. Minha família dirigia uma estalagem. Vários tipos de pessoa a freqüentavam, incluindo membros da yakuza, e dado esse fato, eu pensei que seria burrice não aprender algum tipo de arte marcial. Aconteceu que o dojo local de aiki (ainda não se chamava “Aikido”, e o dojo se tornaria conhecido como “Aiki Shuren Dojo”) havia acabado de iniciar classes para crianças, então eu e outras crianças do bairro nos inscrevemos. Eu tinha doze anos na época.

O-Sensei ainda estava morando em Iwama nessa época?
Sim, apenas depois de 1955 que ele, gradualmente, começou a fazer viagens para fora de Iwama. O-Sensei ensinava na classe de crianças da noite.

A instrução era a mesma do Hombu Dojo em Tóquio?
Eu não sei como eram as aulas em Tóquio naquele tempo, mas ele costumava circular pelo dojo e segurar o pulso de cada estudante individualmente e os ensinava daquela maneira. Ele mesmo não fazia ukemi, mas ele fazia qualquer que fosse a técnica – shomenuchi ikkyo, por exemplo – para cada pessoa no tatame individualmente enquanto todos olhavam. Ele nunca dava nenhum tipo detalhado de explicação.

Não havia tatami no dojo, então o treino poderia ser bastante doloroso. Essa era uma das razões pelas quais era difícil fazer com que as pessoas treinassem ali. Depois de alguns anos eles, finalmente, colocaram tatame no dojo, mas nos havíamos treinado no chão por tanto tempo que, no início, tivemos dificuldade em nos ajustar. Se acontecesse de você bater sua cabeça no chão, fazia um grande barulho, mas a dor nunca parecia penetrar em toda a sua cabeça. Depois que colocamos o tatami, no entanto, a dor atingia você bem no centro. Naturalmente, a maneira que realizávamos o ukemi mudou quando fomos do chão de madeira para os tatames.

Além de Saito Sensei, quem já estava naquela época?
Havia pessoas como o falecido Takeo Murata, Sakae Shimada (atual representante da Federação da Prefeitura de Ibaraki), e Sachio Yamane. Em todo o caso, como eu disse antes, não havia muitas pessoas treinando naquele tempo. Também, Kunio Oyama, que mais tarde se tornou estudante e profissional de wrestler Rikidozan, e pessoas que estavam lá como uchideshi.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Entrevista com Hiroshi Ikeda

por Stanley Pranin
Aikido Journal #104 (1995)
Traduzido por Christiaan Oyens

Aikido Journal: Sensei, que tipo de atividades pratica hoje em dia?
Hiroshi Ikeda: Eu dirijo o dojo de Aikido em Boulder, Colorado. Também, dois ou três finais de semana por mês eu conduzo diferentes seminários aqui nos Estados Unidos, como Califórnia, Seattle, Montana, etc… Freqüento o curso de verão dirigido pelo Robert Nadeau Sensei e o Frank Doran Sensei na Califórnia e o curso de verão dirigido pelo Mitsugi Saotome Sensei em Washington, D.C. Junto com o meu próprio curso de verão em Rocky Mountain, essas são as minhas três principais atividades de verão.

Somado ao seu dojo, o senhor também administra a companhia Bu Jin de produtos para a prática de artes marcias, correto?
Sim, eu fundei a Bu Jin há uns quatorze anos. Fazemos artigos como jo, capas para bokken e hakama. Eu mesmo desenho a maioria dos produtos, então são artigos que você não encontra nas lojas de suprimentos para artes marciais. Nossos hakama são iguais aos feitos no Japão, se bem que o nosso acabamento ficou mais robusto. Ficaram muito populares graças a sua durabilidade.

Vocês têm uma loja ou é tudo feito por correio?
Só aceitamos encomendas por correio. Temos atividade comercial dos Estados Unidos, Canadá e México. Temos eventualmente encomendas da Europa e outros lugares, mas não operamos como uma sociedade mercantil ainda. Tivemos até alguns pedidos do Japão.

Aikidocas profissionais frequentemente assumem práticas paralelas como a massagem ou treinamento policial, mas operar uma companhia como a Bu Jin é bastante original.
Suponho que sim. O fato é que para nós que viemos do Japão é extremamente difícil sustentar-nos ensinando o budo. É claro que a minha intenção fundando o Bu Jin não era apenas o sustento, mas também desejava ter equipamentos com durabilidade.

O que o trouxe para os Estados Unidos?
Bom, começou com o meu professor, Mitsugi Saotome Sensei. Ele era o instrutor na academia quando comecei a estudar na Universidade Kokugakuin. Se não me engano isto faz uns 27 anos e estou com ele desde então. Após sua transferência para os Estados Unidos, ele me perguntou se eu gostaria de vir também. Isto faz uns 19 anos, foi em 1976. Fui direto para a Florida e Saotome Sensei depois se mudou para Washington D.C. Eu fiquei na Florida praticando durante dois anos, depois vim para Boulder.



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Entrevista com Henry Kono


por Norm Ibuki
Publicado Online
Traduzido por José Antonio Sousa

Henry Kono, 75, é o único aikidoista canadense a ter treinado com o Fundador do Aikido Morihei Ueshiba. Nascido em Vancouver, no Estado de British Columbia (BC), em 24 de agosto de 1927. Como nissei (segunda geração de canadense descendente de japoneses), ele, duas irmãs, um irmão e os pais foram detidos em um campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

Após a guerra, a família restabeleceu-se em Toronto. Henry foi ao Japão em 1964 para visitar as famílias de seus pais (originários de Shikoku). Tornar-se um aikidoista foi por acaso. Após visitar a família no Japão, ainda tinha tempo e resolveu visitar o Hombu dojo, em Tóquio, onde O-Sensei estava ensinando. Ele havia lido a respeito de um artista marcial fenomenal e queria ver se era verdade. E era. Henry ficou quatro anos treinando no Hombu dojo.

Retornou a Toronto, Ontário, quatro anos mais tarde, onde trabalhou como ator em propagandas, até sua aposentadoria. Também dá aulas e seminários no Canadá, EUA e Europa. Tem um filho.

Quando me dirigi a ele pela primeira vez, o chamei “Sensei Kono” (“sensei” termo comumente usado no Japão em sinal de respeito a todos os professores). Ele insistiu em que o chamasse “Henry”. Com meu primeiro professor de aikido, de Nelson – BC, Jean Rene Leduc, foi da mesma forma. Encontrei-o em sua casa no leste de Toronto, em 3 de janeiro de 2003.

Ele é uma pessoa amigável e realista. Entre xícaras e xícaras de chá verde e tigelas de biscoitos de arroz, nós conversamos em sua cozinha durante a tarde.

O que você está fazendo atualmente?
Não muito. Às vezes ainda ensino.

Está ensinando na Irlanda?
Vou à Irlanda porque tenho um amigo, Alan Ruddock (anos 50), que estava no Japão comigo naquela época. Não nos correspondemos por cerca de 30 anos. Ele seguiu seu caminho. Há aproximadamente sete ou oito anos, ele me escreveu e disse: “Ouvi dizer que você ainda está vivo! Você quer vir para cá?” Foi então que comecei a ir à Irlanda. Gosto do país.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Entrevista com Mitsugi Saotome - parte 02


por Stanley Pranin
Aiki News #90 (Winter 1992)
Traduzido por Christiaan Oyens

Nesta segunda metade de uma entrevista dividida em duas partes, o fundador das Aikido Schools of Ueshiba (Escolas de Aikido de Ueshiba), Mitsugi Saotome continua falando sobre a sua abordagem de treinamento e o papel do Aikido como defesa pessoal. Ele também fala de seu sonho em criar uma “Universidade de Aikido” e nos apresenta a sua interpretação da mensagem de O-Sensei.

Tenho recebido as respostas mais contraditórias para esta pergunta. O senhor acha q o treinamento forte deve ser ministrado já a partir do nível principiante?
Isto depende da idade do iniciante. É difícil precisar o que é treinar forte e o que não é. Se você diz para alguém de 60 anos para treinar forte do início, ele não irá conseguir e também não é necessário. Esse tipo de pessoa fisicamente tem muita experiência, portanto ela não precisa despender energia desta maneira. Os jovens são por natureza, muito agressivos e você deve fazê-los treinar de forma vigorosa. Tentar frear pessoas jovens cheias de energia não irá funcionar. Eu, portanto, prefiro fazer com que os jovens treinem de forma vigorosa para que consumam sua energia. Mas, isto não é tudo. É melhor cansá-los depressa. O sentido de fazê-los treinar forte é para que tenham consciência dos seus limites físicos. É por isso que os faço treinarem forte e tento esgota-los fisicamente.

Existem alguns instrutores que encorajam o treinamento leve desde o começo. Após três ou quatro anos treinando assim, o Aikido acaba se tornando um tipo de dança. Aí as pessoas começam a questionar se realmente podem usar o que aprenderam.
Não corresponde pensar que se alguém faz os dois tipos de treinamento ele poderá usar as técnicas de Aikido. Por exemplo, existem métodos suaves e fortes aplicados à escultura. Você pode esculpir pegando algo duro e com muito esforço mudar essa forma para criar uma escultura, e você também pode criar uma forma usando material suave como o barro.

Durante o período do Aiki Budo, as técnicas tinham mais ênfase na defesa pessoal do que na maneira que o Aikido é praticado hoje em dia?
Acredito que sim. Mas o principal foco de todo o sistema de treinamento do Aikido é a defesa pessoal. Todas as artes marciais são praticadas com o propósito de defesa pessoal. Não existe nenhuma arte marcial que não esteja baseada no aperfeiçoamento da defesa pessoal. Porém, a coisa maravilhosa do Aikido é que nele se inclui tanto a “autodefesa do oponente” quanto a nossa autodefesa. Nós temos que proteger a vida do inimigo. Ambos são tipos de autodefesa.

Para conseguir isto acho necessário ter autoconfiança.
E você acha que a autoconfiança vem de onde?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Entrevista com Gozo Shioda


por Stanley Pranin
Aiki News #93 (Fall 1992)
Traduzido por José Antonio Sousa

Gozo Shioda, fundador do estilo de aikido Yoshinkan, começou a treinar em 1932, aos 17 anos. Sessenta anos depois ele dirige a única organização internacional de aikido, cujo objetivo principal é a harmonia mundial através da divulgação do espírito do aikido. Nesta entrevista, Sensei Shioda relembra suas experiências como assistente do fundador do aikido, ensinando aiki budo nas escolas militares de Nakano e Toyama, o estabelecimento no pós-guerra do Aikido Yoshinkan, e suas lembranças de O-Sensei no fim de sua vida.

Jornal Osaka Asahi
Sensei, em nossas conversas anteriores o Sr. foi muito gentil ao nos fornecer informações detalhadas sobre seus primeiros anos no dojo Kobukan. Posteriormente, o senhor auxiliou Sensei Ueshiba como instrutor e também ensinou aiki budo em Osaka. Como Sensei Ueshiba começou a ensinar no escritório da empresa jornalística Osaka Asahi?

O presidente do jornal Asahi, Sr. Murayama, foi atacado por um membro de um grupo de direita. Após esse incidente o pessoal do Asahi ficou preocupado, porque o ataque ocorreu mesmo havendo guardas de segurança. Decidiram, então, ensinar defesa pessoal aos seguranças. E assim aconteceu de Sensei Ueshiba ir ensinar no jornal Asahi.

Como o Sr. Murayma soube a respeito de Sensei Ueshiba?

O Sr. Murayama não conhecia diretamente Sensei Ueshiba, mas o Sr. Mitsujiro Ishii e Taketora Ogata [1888-1958, jornalista e político que serviu em diversos gabinetes] conheciam Sensei e o recomendaram, por volta de 1933 ou 1934.

Inicialmente, Sensei Ueshiba ensinou os guardas de segurança, mas também ensinou alguns funcionários do jornal. Hatsutaro Sugii, pai de Kazuo Sugii, que atualmente está no dojo Ueshiba, era o Diretor Assistente de Propaganda no escritório do jornal Tóquio Asahi naquela época e envolveu-se muito com o aiki. Somente o treino no escritório do jornal não foi suficiente para ele, que passou a treinar no dojo Ueshiba em Ushigome por muito tempo. Ele apaixonou-se muito pelo aiki. O Sr. Sugii me teve em grande consideração por muitos anos e quando montei o dojo Yoshinkan em 1965, ele veio a nós e tornou-se uma espécie de conselheiro. Permaneceu no Yoshinkan até sua morte. O Sr. Sugii reuniu pessoas em Koenji e dirigiu a “Associação de Pesquisa Especial”. 

O Sr. Sugii deve ter sido um grande entusiasta. 

Sim. E também tinha uma personalidade maravilhosa. Morreu há cerca de dez anos. Naquela época não acredito que o filho do Sr. Sugii praticasse muito o aikido. Ele devia estar preocupado pelo fato de seu pai vir freqüentemente ao meu dojo.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Entrevista Prof. Gustavo

Em 2006 o Professos Gustavo contribuiu com o TCC do, então aluno do curso de Educação Física, Leonardo Piloto com uma entrevista sobre o Aikido e suas impressões dobre essa arte.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Steven Seagel e o Aikido

Um dos assuntos mais falados nos últimos dias foi a luta de Anderson Silva e Vitor Belfort (UFC 126), ao final de vitória espetacular de Anderson, ele disse a Joe Rogan (entrevistador oficial do evento) que agradecia a Steven Seagel pela técnica que o ajudou a vencer o combate.

Steven Seagel ficou famoso no mundo da pancadaria fazendo filmes em ele utilizava entre, outras coisas técnicas, de Aikdo, inegavelmente sua maior paixão entre as artes marciais.

Abaixo uma entrevista com o ator e 7º Dan de Aikido, Stevean Seagel retirado site http://migre.me/3Re31, tradução: Murilo Garcez (Academia CLAM Goiânia). 

Para saber um pouco mais sobre a história de Sensei Seagel e o Aikdo clique aqui


Ao final do texto, um vídeo de demonstração de técnica e uma entrevista do Sr. Seagel ao Canal Combate.

 Entrevista com Steven Seagal



PERGUNTA: Por que você estudou Aikido em vez de karate?



STEVEN: Eu comecei no karate, e foi em busca de um professor que pudesse ensinar-me a aspectos místicos das artes marciais. As pessoas com quem estudei no karate não podiam me dar isso. Achei o Aikido e pude ler alguns dos discursos de O'Sensei e o vi pessoalmente.


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Entrevista de Gleason Sensei

Livre tradução feita por Francisco França Junior (Frank)
Instrutor graduado do Aizen Dojo, Brasília

After the interesting seminar William Gleason Sensei, VI dan Aikikai, has given in Rome on December 13-14, 2008, he kindly accepted to have a chat with us during a Japanese lunch in the Italian capital. This interview was taken from notes and memories of that and preceding conversations, and after a subsequent mail exchange with Sensei to fill up remaining doubts and questions. The interview was conducted by Marco Marini (MM) and Pasquale Robustini (PR).


Depois do interessante seminário que William Gleason Sensei, 6o dan Aikikai, ministrou em Roma (13 e 14 de dezembro de 2008), ele gentilmente aceitou conversar conosco durante um almoço japonês na capital italiana. Essa entrevista foi escrita a partir de notas e recordações do almoço e de conversas anteriores, e depois de uma troca de mensagens com Sensei para esclarecer dúvidas ainda existentes. A entrevista foi conduzida por Marco Marini (MM) e Pasquale Robustini (PR).


MM: What is Aiki actually?

WG: Aiki is the unified state of Heaven, Man, and Earth. It is the vertical or spiritual unification of an individual and his or her environment. This state is absolute and therefore has no opposite or back side. When it is brought into motion it becomes ki-ai or yamabiko, the mountain echo, as O-sensei called it. This means that, maintaining your vertical unity, your ki goes out to your partner and again returns to yourself
.
MM: O que é, na realidade, Aiki?

WG: Aiki é o estado unificado de Céu, Homem e Terra. É a unificação espiritual ou vertical de um indivíduo e seu ambiente. Esse estado é absoluto e consequentemente não existe o seu oposto. Quando ele é colocado em movimento se torna ki-ai ou yamabiko, o eco da montanha, como O-Sensei o chamava. Isso significa que, mantendo sua unidade vertical, seu Ki se dirige até o seu parceiro e novamente retorna para você.